Toda vez que o conhecimento passa por uma crise, perde a crença, ganha a ciência. Neste final de século, a Psicanálise passa por uma crise de renovação. Não para criar um novo "ismo" ou "ano" – sufixos esclerosantes – mas possivelmente para se livrar deles todos: dos freudismos, kleinianos, kohutianos, bionianos, lacanismos. Tendendo a integrar essas visões pioneiras e geniais numa ciência da mente, ou, pelo menos, tentando consolidar uma pesquisa psicodinâmica unificada que nos ofereça ferramentas teóricas mais eficazes de intervenção clínica. Em torno desse objetivo, um grupo de psicanalistas e alunos adiantados de Psicanálise reunem-se comigo há cerca de dez anos. Dr. Decio Tenenbaum é um desses que integrou um grupo para estudar a Psicanálise em Freud, transcendendo a Psicanálise de Freud. Suas participações sempre foram marcadas por sua inesgotável curiosidade, interesse autêntico de saber e sua apurada crítica. Acredito que daí derivaram suas preocupações por uma ampliação dos horizontes teóricos da Psicanálise e a tentativa de incluir uma metapsicologia da consciência, buscando um laço entre a Psicologia Geral, a Fenomenologia e a Psicanálise. O Dr. Decio Tenenbaum, membro titular e didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, representante brasileiro na "Standing Conference on Psychosis of The International Psychoanalytical Association", além de professor de Psicologia Médica, inicia a pesquisa através deste "Investigando Psicanaliticamente as Psicoses", com notável perspicácia e capacidade de síntese. Tem o mérito de formular questões de grande poder heurístico. Embora nem sempre as responda, realiza minuciosa revisão crítica da literatura, com o que desfaz algumas crenças e rituais comuns à prática psicanalítica. Identifica-se, ao longo do texto, como um discípulo meu. Na verdade, expressa com essa gentileza um traço que nos une e nos torna companheiros para depurar o conhecimento psicanalítico de alguns ícones supérfluos e complicadores e abrir a teoria a uma lufada renovadora de reflexão. Necessária a toda ciência! São primorosos, nesse sentido, os exemplos clínicos no terço final do livro. Recomendaria como leitura importante, senão obrigatória, a todo aquele que pensa e age psicanaliticamente. Não para perder-se em retórica, mas para auxiliá-lo em seu ato terapêutico. Embora comprometido com o exame da desorganização psicótica, é leitura importante para a compreensão da psicodinâmica de uma maneira geral. Não é leitura, contudo, para principiantes, ou para leigos. Tampouco é didática, no sentido de sistematizar ou esgotar o tema. É muito mais um ensaio crítico. Ensaio que certamente dará ao autor fôlego para continuá-lo em outros textos como este, e inspirar outros autores a prosseguirem nessa tarefa fundamental de renovar a Psicanálise.
Abram Eksterman

 

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Vivemos hoje num período extraordinário, em que os avanços contínuos e acelerados das ciências obrigam a uma incessante reformulação dos próprios fundamentos pelos quais damos sentido a nosso estar-no-mundo. Uma das características mais marcantes de nossa época é assim a dissipação de algumas fronteiras tradicionais que costumavam demarcar, até bem recentemente, os domínios de operação de diferentes saberes e disciplinas, ainda que pertinentes a uma mesma área de atividades. A complexidade dos temas abordados na atualidade tornou indispensável a convergência e o entrecruzamento de idéias e abordagens oriundas de variados campos de investigação. É sob esta perspectiva transdisciplinar que a obra do Dr. Decio Tenenbaum adquire sua mais autêntica magnitude: aos investigadores do difícil problema da determinação da natureza das psicoses oferece um punhado de sólidas diretrizes teóricas, elaboradas a partir da conjunção da Psicanálise com elementos tomados da física dos objetos complexos, da biologia darwiniana e da etologia contemporânea, bem como instigantes sugestões clínicas, expostas com elegante clareza. Profundidade e flexibilidade: eis o que o leitor interessado encontrará neste convite ao pensar que é também um desafio, e sua efetividade logo o empolgará. Com efeito, como recusar o que é indispensável?
Luiz Alberto Oliveira
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas

"Investigando Psicanaliticamente as Psicoses" é fruto direto da minha experiência como um dos professores do curso "Investigação Psicanalitica das Psicoses" do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. A idéia de escrevê-lo surgiu ao notar que as dúvidas e os mal-entendidos a respeito das concepções freudianas sobre as psicoses, semestre após semestre, eram praticamente as mesmas.
Inicialmente pensei em fazer apenas um roteiro evolutivo das idéias de Freud em relação ao tema e, de fato, iniciei esta empreitada em 1995. Comecei pesquisando em cada um dos volumes das obras completas os verbetes que tivessem alguma relação com o assunto. Além disso, revi todos os casos clínicos e todos os textos que abordam o fenômeno psicótico. Isso me tomou quase 2 anos, no fim dos quais tinha relido praticamente a obra completa, pois a psicose é um tema recorrente na obra de Freud.
Ao ler minhas anotações, percebi que todas as dúvidas que eu havia coletado das diferentes turmas do curso poderiam ser englobadas em 3 perguntas básicas:

Como estas são questões básicas que envolvem tanto o conhecimento sobre o funcionamento mental quanto sobre a desorganização mental, mudei o plano inicial e resolvi não mais apresentar apenas um manual de estudo sobre as idéias de Freud a respeito dos fenômenos psicóticos, embora o capítulo sobre o texto freudiano também possa ser utilizado desta forma. Decidi me aventurar a responder estas três perguntas fazendo uma abordagem crítica das diferentes concepções acerca do fenômeno psicótico existentes na Psicanálise e seus impasses. Apresentei também algumas sugestões para uma nova abordagem teórica e técnica a partir do conhecimento mais atual sobre o funcionamento do cérebro e da mente.
Aproveitando minha experiência de mais de 30 anos trabalhando em hospitais psiquiátricos, abordei também questões relevantes no tratamento oferecido a este tipo de doente por nossa rede assistencial.
O livro ficou dividido em quatro capítulos. No 1º capítulo fiz a apresentação do que Freud considerava ser o fenômeno fundamental na psicose. Precisei, como introdução, situar a evolução do conceito de psicose, posto que os textos freudianos foram escritos numa época em que a sistematização do assunto era muito pequena (os estudos freudianos também tinham a sistematização dos fenômenos mentais como um objetivo, daí a tentativa nosográfica de Freud). No 2º capítulo expus minhas opiniões sobre o acontecer psicótico e suas conseqüências para o funcionamento mental. Com a intenção de indicar uma estratégia de tratamento psicanalítico para as psicoses baseada no que foi discutido nos dois primeiros capítulos, dediquei o 3º capítulo a exemplos clínicos oriundos da minha própria experiência. Finalmente, o 4º capítulo aponta áreas do funcionamento mental que precisam ser exploradas para um melhor conhecimento psicanalítico das psicoses.

Decio Tenenbaum


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